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Fisiologista do esporte: mocinho ou vilão?

Atualizado: Abr 4

A intervenção do biomédico fisiologista do esporte hoje nas equipes de futebol é um mal necessário. O trabalho deste profissional é tão significativo, pois o resultado de sua análise sobre a condição física de determinado jogador de futebol pode retirá-lo de uma partida importantíssima desfalcando a equipe e muitas vezes trazendo um grave prejuízo. Por outro lado, a ciência da fisiologia se tornou grande aliada das comissões técnicas uma vez que o fisiologista através de suas análises sabe qual tipo de exercício e a carga exata que determinado atleta pode se submeter, tanto para evitar lesões, quanto para o aumento do seu desempenho físico.


A fisiologia em sua origem se baseava na prescrição de exercícios com fins terapêuticos no tratamento e prevenção de doenças. Somente ao final do século 19 que preocupou-se em ser objeto de estudo científico. Destaca-se que somente nos anos 70 iniciou o estudo da fisiologia do esporte tendo como precursor Maurício Leal Rocha, professor da Escola de Educação Física da UFRJ. O professor inovou em dar início aos estudos sobre fisiologia do esporte, e ainda, foi o pioneiro nos estudos da medicina esportiva.


Se no início o papel do fisiologista estava restrito à prescrição de exercícios para fins terapêuticos, tratamento e prevenção de doenças, houve um upground, pois hoje no futebol atua como protagonista, suas análises são tão importantes que são capazes de interferir na escalação das equipes. O estudo da fisiologia no esporte, principalmente no futebol, tem como aliada as novas tecnologias podendo destacar o auxílio do GPS, acelerômetros, câmeras que analisam todos os atletas em um jogo em tempo real, etc.


Mas o que faz um biomédico fisiologista do esporte?

O profissional faz uma verdadeira investigação científica atuando na captação e estudo de dados clínicos para detectar, mensurar a probabilidade de uma atleta profissional ou praticante de atividade física apresentar problemas fisiológicos a curto, médio e até longo prazo. De acordo com estudiosos, este estudo leva em conta a resposta que funções orgânicas dão ao estresse imposto por uma sessão de exercício físico.


Tal função é muito complexa que em sua atuação o fisiologista do esporte tem que ter amplo conhecimento sobre várias áreas como: bioenergética, bioquímica, função cardiopulmonar, biomecânica, hematologia, fisiologia do músculo esquelético e funções neuroendócrina e do sistema nervoso. Em suma, cabe ao fisiologista dentro de uma comissão técnica:


  • Avaliar- a condição tanto física como fisiológica dos atletas para que a comissão possa elaborar adequadamente um plano de treinamento;

  • Monitorar – para após, com base nestes dados ,se possa analisar o desenvolvimento do atleta;

  • Controlar- as imposições das cargas de treino sobre os atletas.


É importante reiterar que as informações coletadas são levadas à comissão técnica que em mãos destes resultados dá continuidade a análise juntamente com outros dados trazidos pelos fisioterapeutas, médicos e nutricionistas. Trata-se de um trabalho sistêmico em que atuam muitos profissionais para chegar ao resultado mais completo sobre o real condicionamento dos atletas.


Como funciona na prática?

Primeiramente, após uma sessão de exercício físico o atleta profissional é submetido a uma minuciosa análise que leva em conta a sua resposta observada durante a execução deste exercício. Elas são chamadas de subagudas ou pós-exercício.


Após, são analisadas as respostas imediatas, que ocorrem nas primeiras uma ou duas horas após o exercício, e tardias, quando decorrem de 24 horas pós-exercício. Já os efeitos crônicos, chamados "adaptações", correspondem às alterações estruturais e funcionais decorrentes de um longo período de treinamento físico regular.


Pode-se dizer que o exercício físico age como um verdadeiro estressor do organismo do atleta. Dessa forma, o organismo, em resposta ao exercício físico praticado, fica numa situação de instabilidade. Portanto, a fisiologia serve para elaborar pesquisas que tragam uma visão mais abrangente e integrada dos efeitos do exercício no organismo dos atletas como um todo.


Alguns dados sobre a performance de atletas já são de conhecimento público. Registra-se que um atleta de alto rendimento da Champions League percorre 14,0 km durante a partida, dados apresentados pela Uefa, e a distância final média percorrida durante os 90 minutos fique em torno de 8,5 e 12,0 km. São dados que variam de acordo com a posição, função, equipe e circunstâncias do jogo. No Brasil pouco se sabe sobre este assunto, mas alguns dados extraídos dos clubes demonstram que o percurso chegue próximo à 9,0 km.


Não podemos deixar de destacar que, em se tratando da prática de futebol, há a presença de outros fatores que interferem nestes dados, como por exemplo: o clima, as logísticas de viagem, o gramado, entre outros. Esses fatores climáticos, geográficos e até psicológicos também podem levar o organismo ao estresse e instabilizar de forma a causar danos ao profissional do futebol.


Partida de calor de aproximadamente 61ºgraus em 2014, os atletas do Grêmio precisaram molhar as chuteiras (foto: divulgação)

Durante uma partida de futebol, os jogadores ficam expostos em um único campeonato ao sol escaldante de em algumas regiões do país (temperatura extremamente elevada, como nos jogos das 11h) e baixa umidade relativa do ar, o que expõe o atleta a um extremo risco a sua integridade física tanto na parte cardiovascular, como interfere na perda de força, massa muscular e precisão dos movimentos. Em locais onde o clima é muito frio, como no Sul do país, a força muscular é ainda mais prejudicada: o tempo de reação é mais lento o que também gera um aumento de risco de lesão. Até mesmo em dias de chuva há perigos à integridade do atleta. Por isso, a ciência da fisiologia do esporte é tão interessante e envolvente. Nota-se que seu estudo é vasto e complexo e envolve inúmeros fatores antes não considerados relevantes.


Alguns estudos de pesquisadores renomados revelam que mesmo aplicando as melhores técnicas e procedimentos nutricionais e de recuperação nos atletas de alto rendimento que atuaram os 90 minutos a recuperação do glicogênio muscular é demorada. Revelam que passadas 96 horas do fim do jogo é possível que o atleta ainda não tenha recuperado 100% do glicogênio muscular.


Dessa forma, a fisiologia do exercício se divide em duas linhas de investigação: Desempenho esportivo e aplicação clínica. A investigação do desempenho esportivo trabalha com a avaliação dos atletas, os procedimentos de treinamento, o desenvolvimento de capacidades motoras, as respostas agudas e adaptações ao processo treinamento, efeitos do meio ambiente.


Já a aplicação clínica é voltada à saúde onde os estudos abordam a prevenção, tratamento e controle de doenças relacionadas à hipocinesia (deficiência nas funções ou atividades motoras), em especial, as doenças crônico-degenerativas. Como o corpo humano funciona, reage e se adapta frente aos estímulos oferecidos pela prática de exercícios físicos permite a busca por soluções mais adequadas para a melhoria da saúde e do rendimento físico-esportivo.


Como funciona o dia a dia do fisiologista?

Em reportagem ao site Globo.com, o fisiologista do Figueirense, Almir Schmitt, relatou que implementou diante da adversidade trazida pelo novo Coronavírus uma plataforma on-line. Os atletas utilizam a plataforma para atualizar sua condição física por meio de perguntas elaboradas pelo profissional. Foi a forma encontrada para mapear as dificuldades dos atletas do plantel.


Quem ganha com o trabalho do fisiologista?

O atleta, pois tem seu corpo preservado, cuidado, reabilitado e investigado trazendo uma vida esportiva profissional mais longa e melhoria significativa em sua performance; o clube, pois o trabalho do fisiologista previne lesões e consequentemente evita que o clube arque com futuras demandas trabalhistas decorrentes destas, ganha também em poder contar com o atleta, importante patrimônio; o torcedor, que poderá acompanhar por mais tempo seus ídolos em suas equipes esportivas.


Fisiologista do exercício, nem mocinho, nem vilão. Um importante personagem que compõe a comissão técnica. Profissional imprescindível ao futebol de alto rendimento, futebol empresa, futebol de resultados.

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