• Stephany Locatelli

Futebol e mulher: as raízes do preconceito

Atualizado: Jul 24

Por vezes falamos da participação da mulher no cenário esportivo e em como o preconceito é exacerbado nesse quesito. Acontece que, o que muitos não sabem é que o tal preconceito está presente desde cedo, num local onde passamos a maior parte da nossa infância: a escola. E não, não me refiro apenas a colegas de turma e sim aos professores e gestores. Há exceções? Com toda certeza. Todavia, por experiência própria posso dizer: os meninos levam muito mais vantagem quando estamos na quadra.


Alberto Jacob Filho

Foram onze anos (da primeira série/ segundo ano do fundamental até o terceiro ano do ensino médio)! E o que posso dizer é que dos onze anos posso contar nos dedos as vezes que as meninas tiveram oportunidade de praticar o futebol ou qualquer outro esporte. E sabe o que é mais curioso? Em todos os anos que as meninas tinham o mesmo tempo em quadra e podiam participar das atividades igualmente com os meninos, a professora era MULHER. Coisa que não aconteceu nos demais anos, onde as meninas eram jogadas para escanteio ficando na torcida ou jogando jogos de tabuleiro. Coincidência? E a interclasse? Não era diferente, para os meninos sempre foi mais fácil competir, já no caso das meninas era preciso “pedir” permissão para competir. E obviamente, as atenções eram sempre voltadas para os jogos principais: dos meninos. E qual não era a surpresa quando um professor perguntava espantado: “Mas você joga?”.


Baseada na experiência que tive, fiz uma pesquisa entrevistando os dois lados da história, ao todo foram 40 pessoas entrevistadas (20 meninas e 20 meninos). Confira alguns depoimentos das meninas e logo em seguida os dados:


“Na época que eu estudava os meninos sempre tiveram preferência.” – Luana Maria da Silva Lima.


“(Os meninos) Sempre tiveram preferência na quadra.” – Karine Requeijo.


“Acho que sempre jogava vôlei, porque as meninas não queriam, mas os meninos tinham preferência.” – Lívia Wanessa Gomes de Sousa.


“(Os meninos) Sempre tiveram preferência, mas as meninas não se interessavam. Mas, quando tinha interclasse, tínhamos os mesmos direitos ao menos.” – Beatriz Reis Borges.


“As meninas jogavam as vezes por conta do número de meninas que queriam, mas o meninos tinham preferência, sim.” – Adineva Firmino.


“Na minha escola era assim: a professora nunca passava futsal, porque ela dizia que as meninas não queriam jogar. Teve uma vez que uma menina queria, só que acabou que não deu certo.” – Maria Eduarda Batista Rolim


Dados dos entrevistados:

1. Na escola, as meninas jogavam bola?

90% das meninas disseram que não jogavam futebol na escola por conta da preferência dos meninos, enquanto os outros 10% disseram que jogavam, mas não o mesmo tempo que os meninos.








2. Como eram os jogos de interclasse na sua escola?

85% das meninas disseram que as disputas de interclasse eram voltadas apenas para o masculino.



3. Você teve alguma professora de Educação Física mulher? Como eram as aulas?

55% das meninas afirmaram que quando a professora era mulher sentiam-se mais representadas nas aulas. 5% disseram que apesar da professora ser mulher, não jogavam. Os outros 40% não tiveram professoras mulheres.


4. Acha que há algum problema em meninas e meninos jogarem juntos?

70% disseram que não acham justo meninos e meninas jogarem juntos justamente por conta das características físicas. 20% disseram que não viam problema algum em jogar contra as meninas, embora a falta de competitividade afetasse um pouco. E 10% dos meninos disseram que não gostavam de jogar com as meninas porque caso perdessem, sentiriam um desconforto.


Como podemos ver, a pesquisa apontou como a mulher ainda tem pouco espaço (e em alguns casos nenhum espaço) quando tratamos de futebol/ esporte nas escolas. Isso se explica através dos preconceitos enraizados na história. Em um país onde o futebol feminino foi proibido por lei por quase 40 anos, é difícil imaginar que as coisas avançariam a nosso favor de maneira tão rápida. Por esse motivo ainda nos dias de hoje as meninas passam por grandes apuros quando querem praticar o esporte, visto que para a sociedade o esporte ainda é dividido entre masculino e feminino: ginástica para as meninas, futebol para os meninos e tantas outras distinções.


Pesquisas apontam que ao introduzir os esportes na educação física nas escolas brasileiras, automaticamente meninos e meninas foram rotulados. Enquanto as meninas eram consideradas frágeis e delicadas, os meninos eram sinônimos de força e poder. Todavia, sabemos que isso não passa de estereótipos que a sociedade cria e que acabam sendo desmoralizados pelo fato de que ambos os sexos podem fazer qualquer tipo de esporte, independente se exigem muita ou pouca força, mais graciosidade ou não. É preciso trabalhar em intervenções para fazer com que meninos e meninas ocupem o mesmo espaço e tenham os mesmos direitos. É necessário realizar nas escolas uma construção social sem excluir as mulheres para podermos num futuro diminuir e acabar com o preconceito.


E ainda sobre esse tema conversei, também, com a profissional da área Luciana Stecchini formada em Educação Física pela Unicamp com especialização em natação para fóbicos, especialização em natação infantil e especialização em treinamento funcional, sobre o que acha acerca do assunto. Confira:


Na pesquisa realizada, pude notar que a maioria das meninas não jogava futebol nas escolas por conta da preferencia que os meninos tinham. E que os poucos anos em que jogaram, a professora era mulher. Por que a senhora acha que isso acontece?


Stecchini: Puro machismo. Algo tipo: “futebol é coisa de homem” ou “mulher macho que joga bola” e por aí vai. Quando ministrava aula, dividia por tempo. Dez minutos para cada. Sofri horrores por isso por parte dos meninos até que acostumarem. Marta, jogadora de futebol, tem mais títulos que muitos jogadores e tem o salário infinitamente menor. E digo mais: a mídia também não nos favorece. Jogos femininos começaram a serem exibidos há pouco tempo.


O que a senhora acha de meninos jogarem contra as meninas?


Stecchini: Eu, particularmente, não tenho nada contra. Em minhas aulas as meninas jogavam com os meninos. Óbvio que tinham algumas regras: só as meninas podiam fazer gols. Porém o meu maior medo era algum menino, de propósito, chutar alguma bola forte e machucar alguma menina. Nunca vi nenhum problema em jogarem juntos, mas irritei muitos machistas, preconceituosos durante a minha carreira como professora. Algo é inegável: os homens já nascem mais fortes e nós mulheres mais resistentes. Sempre defendi as meninas e lutava por elas, sim.


Tendo em vista que o preconceito começa desde a escola na divisão de atividades que meninos e meninas devem praticar o que deve ser feito para diminuir ou acabar com o preconceito nas aulas de Educação Física?


Stecchini: Fortalecendo a causa. Não concordo que o preconceito começa na escola. Começa em casa. Os meninos podem ficar na rua jogando bola até mais tarde e as meninas nem podem jogar, dirá ficar na rua. Porém a escola como um todo tem que ajudar a acabar com o preconceito. Com atitudes sem generalizar. Lembro-me dos jogos interclasse, muitos gestores achavam desnecessário fazer o jogo feminino, porque o número de times era bem menor. Eu batia de frente e não obedecia. Na escola que ministrei aula, as meninas do futsal eram campeãs todos os anos. Sempre estivemos nas finais dos estaduais, fomos vice-campeãs brasileiras e sempre estivemos entre as quatro melhores do estado. Isso me ajudou a vencer o tabu. Mas, para vencermos necessitamos de união e lutar como ninguém por nossos direitos. Lugar de mulher é onde ela quiser: na quadra, no lar, nos estádios, na indústria... Vida longa as mulheres!


O futebol é o esporte mais popular do mundo, amado por tantas e tantas pessoas e jogado desde campos de várzea até arenas lotadas. E, infelizmente, apesar de todo o espetáculo, ainda é visto como predominantemente masculino e nesse mês de março onde comemoramos o Dia Internacional da Mulher, lembramos historicamente da nossa luta por igualdade e respeito e que ela ainda está longe de acabar. Com isso, visando à falta de visibilidade que as mulheres tem, é notável a contribuição que isso leva para a falta de lembranças da sociedade sobre a nossa presença em meio a esse cenário, mas como disse Luana Maluf: “Enquanto lutarmos por isso, talvez nenhuma outra menina tenha que pensar em ser um menino para fazer apenas o que deseja!”.

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