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Futebol feminino: a representatividade, o amor e a luta

Quando falamos de futebol feminino estamos falando do futebol na sua mais pura essência, onde o amor e a paixão são maiores do que qualquer adversidade. Costumo dizer que futebol feminino e a luta sempre estiveram na mesma frase, porque desde sempre foi assim. Nós lutamos há anos, todos os dias, para que a modalidade tenha sua importância reconhecida. Entretanto, em pleno 2020 ainda encontramos, não resquícios, mas uma desigualdade gigante entre equipes femininas e, às vezes, maior ainda entre equipes femininas que são referência e equipes masculinas.


(foto: divulgação)

As dificuldades daquelas que amam e praticam o esporte vai muito além das quatro linhas. Não se trata apenas de um time vencer ou perder dentro de campo, mas sim de todas juntas ganharem fora dele. Em um país onde as mulheres foram proibidas de praticar qualquer esporte que exigisse força por alegação de ir contra a sua natureza, em um país onde entre esses esportes o futebol para elas foi proibido por trinta e oito anos (de 1941 a 1979), em um país desse como ainda podemos chamá-lo de “país do futebol”? O futebol feminino não existe apenas de quatro em quatro anos onde todos voltam os olhares para contemplar a Copa do Mundo de Futebol Feminino, como foi em 2019. Se estamos tão acostumados a dizer aos quatro ventos e bater no peito que somos o “país do futebol”, porque a participação da mulher é colocada de lado como torcedora, jogadora ou jornalista?

Na última quarta-feira (21), em jogo válido pela segunda rodada do Paulistão Feminino, a equipe do Taboão da Serra enfrentou o São Paulo, na Arena Barueri, e perdeu. Não por um ou dois gols. Não por cinco. Mas, por vinte e nove. Foram 29 gols a 0. E isso não é engraçado, isso não é normal. Só escancara mais ainda a falta de estrutura que as equipes femininas possuem. A falta de apoio, de investimento. Ao final do primeiro tempo, o placar anotava 17 a 0 e a volante Nini, capitã do CATS/Taboão, relatou os problemas que o time enfrenta.

No fim, quem realmente perde com isso é a modalidade. Realidades como a do time do Taboão da Serra passam despercebidas até que alguém resolve expor os problemas, que por mais explícitos que estejam muitos ainda preferem vendar os olhos. Todavia, quando isso acontece, choca! Porque acredita-se (ou ao menos acha-se) que o futebol feminino tem evoluído e que ele está ocupando um lugar mais alto do que ocupava há alguns anos. E pode ser que esteja alguns degraus acima do que era, mas ainda falta muito para alcançar o maior e principal objetivo. Essa realidade assustadora está presente no Campeonato Paulista, um dos melhores (se não o melhor) estadual, é o outro lado da moeda que muitos desconhecem.


Do que adianta fazer uma competição apenas por fazer? Sem levar em conta as condições das equipes? O descaso que se tem ainda com o futebol feminino é extremamente visível, não há disfarce. Os problemas estão bem diante dos nossos olhos: times que não investem; times que só tem o time feminino para não prejudicar o masculino; times que “emprestam” nomes, mas não se importam de fato com a equipe; times sem estrutura e sem uniforme. Como esperar o mínimo de competitividade diante de tanta desigualdade?


É impossível crescer se continuarmos fechando os olhos para os problemas e rindo de situações como essa. Sabemos que ainda estamos longe de livrar o futebol do machismo enraizado. Sabemos que ainda existem pessoas que acreditam que futebol e mulher não funcionam. Mesmo em 2020, ainda existem pessoas com pensamentos retrógrados de uma época em que a proibição era um verdadeiro pesadelo para aquelas que amavam o esporte.


Apesar de tudo isso, mesmo que ainda devagar seguimos caminhando. Há alguns anos, não tínhamos transmissão do futebol feminino e hoje isso tem mudado. Tanto o Campeonato Brasileiro, quanto o estadual Paulista está sendo transmitido. No ano passado, a Copa do Mundo Feminina bateu recordes de audiência tornando-se o mundial mais visto no mundo (ao todo, 1,12 bilhões de espectadores assistiram à cobertura na TV). E isso tem, sim, uma grande importância, é um passo fundamental para o crescimento: ser mostrado! Se antes não tínhamos uma referência para acompanhar na televisão, hoje temos. Se antes uma garota não via alguém como ela ali, hoje ela pode ver e se sentir representada. Mas ainda falta apoio, ainda falta investimento, ainda não há quem queira patrocinar. Mesmo depois de décadas ainda falta muito para o futebol feminino ter o espaço e a visibilidade que ele merece. Mesmo que haja meninas querendo jogar e pessoas querendo assistir, o futebol feminino ainda recebe o “não” de muitos.

As jogadoras carregam uma bandeira valiosíssima pedindo por respeito e valorização. É necessário estarmos sempre engajadas com o que acontece nesse cenário para nos posicionarmos sempre em favor do nosso espaço. E não vamos parar! Até porque já tentaram nos parar antes (e ainda tentam todos os dias). Mas, como afirmou a jogadora do CATS, Tauani: “Eu estou muito orgulhosa do meu time porque a gente teve garra. [...] Agora é seguir em frente”. Sim, é isso. Garra, luta, seguir são palavras fortes que marcam e escrevem a história daquelas que não desistem. Nunca!


Caso CATS: até quando o futebol feminino será subvalorizado?

Torneios distintos e reflexos permanentes. Os últimos dias mostrou a discrepância que o futebol feminino ainda enfrenta mesmo diante dos avanços e conquistas que tiveram nos últimos anos.


Foram necessários o desabafo de Nini e um placar, para reacendermos a chama que nunca deveria apagar: a visibilidade, o investimento, a estrutura, patrocínio e a valorização do futebol feminino. Há uma grande vitrine de talentos por trás dessas meninas que os dirigentes dos clubes não enxergam, e desvalorizam.

Nini, volante e capitã do CATS Taboão

Com a repercussão do desabafo da volante e capitã, Alieni Baciega Roschel, conhecida pelo apelido Nini, o presidente do CATS Taboão, realizou uma reunião com o time na última quinta-feira (22), e entre as promessas e mudanças, o clube se dispôs a ajudar com máscaras por conta da pandemia, uniforme de apresentação, alimentação e ofereceu o campo de Embu das Artes para o treinamento. “Nesse dia, nós fizemos o teste da Covid-19 e eles forneceram uma van para irmos do local do teste até o treino. O que antes arrumávamos carros e íamos se apertando, pegávamos ônibus e tínhamos que se virar. Então, hoje ele já conseguiu fornecer isso para nós também,” apontou a jogadora.

Foi necessário uma viralização na internet para condições mínimas que as jogadoras deveriam ter, serem existentes e promessas que foram feitas antes, serem cumpridas. Mas quando falamos de dinheiro e estrutura, principalmente para o futebol feminino, o discurso é sempre “esse apoio financeiro o clube não tem como dar. Não porque não querem, e sim, porque eles não têm.” A força dessas meninas continuarem é o sonho através do futebol e o apoio da sociedade. “Acredito que irá vir mais melhoras financeiras, a princípio não pelo clube, mas pela solidariedade das pessoas que estão comovidas com a história e estão nos ajudando.”

Muitas pessoas se comoveram com a história do time e começaram a mandar mensagens de apoio e oferecendo ajuda de verba. Diante da movimentação, foi criada uma Vakinha on-line, com intuito de ajudar as meninas com um apoio financeiro para o deslocamento delas até o treino, alimentação e demais necessidades ao decorrer do campeonato. Todo valor arrecado será divido por igual entre elas.

O cenário de muitos clubes, sejam eles pequenos ou grandes, é que ainda veem o futebol feminino como segundo plano, com uma desigualdade visível em relação ao masculino. O CATS Taboão, assim como outros times, conta com os dois times, entretanto, o foco e o investimento é nos meninos, reverberando muito retorno após o reconhecimento que esses jovens têm após as competições. “O tempo todo quando falamos com a presidência do clube, eles enaltecem muito o nome do CATS enquanto futebol masculino, o CATS na Copinha, Copa São Paulo, tudo gira em torno do futebol masculino aqui dentro. O feminino eles apontam que nunca lidaram. Então, não sabem como fazer isso,” conta Nini.

A subvalorização e desigualdade existente fica evidente quando o presidente aponta que não tem verba para ajudar as meninas, mas o masculino já tem toda estrutura e competições fechadas para 2021. “O CATS masculino vai jogar a Copa São Paulo ano que vem, e já fechou parceria, tem uniforme pronto, e tudo fechado para as competições do calendário. Enquanto, o feminino está no meio do Campeonato Paulista sem recursos e não temos nada fechado para o próximo ano,” ressaltou Nini em entrevista ao FPE.

O CATS masculino tem um planejamento antecipado para competições, escalação do time e treinamento. Mas quando se fala de feminino, embora em 2010 e 2011, já tiveram uma equipe que representou o clube no Campeonato Paulista Feminino, depois não houve continuidade na modalidade. “Foi neste ano, que decidiram retomar o projeto, e em março, fizeram uma peneira e chegamos a ter de três a quatro treinos antes da pandemia. Depois o time se desestruturou porque muitas meninas não eram da cidade, e faltando algumas semanas para o Campeonato voltar, tiveram que montar um outro time,” relata a volante.

“A grande parte das meninas não se conheciam, eu mesma conhecia quatro meninas da equipe. Fomos nos conhecer durante os treinamentos que foram super curtos e isso atrapalha bastante na questão de entrosamento, técnica, tática e questão física. O ideal seria que o projeto tivesse começado a mais tempo. Até porque a maioria das equipes que estão jogando o Campeonato Paulista, ou não pararam durante a pandemia ou retornaram dois meses antes da competição”

A goleada sofrida pelas meninas é o reflexo do segundo plano do futebol feminino, a visão desvalorizada dos dirigentes, e a falta de investimento de clubes de pequeno porte, que acabam não fazendo planejamento antecipado para a modalidade competir.

A expectativa é que através da repercussão da entrevista, o futebol feminino do CATS Taboão tenha uma continuidade para os próximos anos. “Na reunião, batemos bastante na tecla que eles precisam apoiar um pouco mais o futebol feminino. A história do CATS feminino, começou nesta semana, e espero que ano que vem eles mantenham a equipe ativa. A região é muito fértil de meninas e talentos. Então, se derem continuidade nesse projeto terão muitas meninas que irão querer jogar pela camiseta, pelo clube, e que com certeza irão representar muito bem se essa possibilidade existir,” relata a capitã.


Para a lateral direita, Bianca dos Santos Silva, de 18 anos, foi muito importante o depoimento da Nini para elas. "Nunca imaginaríamos que teria essa repercussão toda, mas foi importante para nós pois nos ajudou muito, também recebemos mensagens de apoio e incentivo que com certeza nos motivaram a continuar seguindo nosso sonho." Em relação ao jogo, a jogadora aponta que apesar do placar, o time deu muita raça em campo, foi até o fim e não parou de lutar, infelizmente o resultado não foi o esperado, mas cada uma ali deu o sangue pra tentar ganhar.

Nini, tem 32 anos, carrega um sonho antigo de ser jogadora profissional, e hoje sua luta é para realizar o sonho das meninas do seu time, que tem em média 20 anos, a idade que despertou nela esse desejo. “É gratificante conseguirmos realizar um sonho nosso em outra pessoa, e ver que o sonho da outra pessoa era parecido com o nosso, e quero ajudar isso a se tornar realidade para as meninas,” finaliza.


Escrito por Bianca Lodi e Sté Locatelli.

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