• Stephany Locatelli

Lugar de mulher

Eu já perdi as contas de quantas vezes escutei de um cara que futebol não era pra mim, de quantas vezes me perguntaram se sabia o que era impedimento ou se eu sabia falar pelo menos cinco jogadores do meu time só para “provar” que eu realmente entendia do assunto. Já perdi as contas também de quantas vezes falei sobre esse tema. O assunto é batido e isso porque direto se ouve falar de uma fala ou atitude machista que acontece no meio esportivo. Não sou a primeira, nem a única e muito menos serei a última a passar por isso, infelizmente.


E mais um episódio desses aconteceu durante a transmissão da Botafogo TV na última semana na partida entre Botafogo e Vasco, pela Copa do Brasil. O ídolo do clube Jairzinho durante a partida fez um comentário extremamente infeliz direcionado a auxiliar Neuza Ines Back após a marcação de um impedimento: “Está dando mesmo (dor de cabeça), está dando mesmo. Vai lavar roupa, pô. Pelo amor de Deus. Essa Federação Carioca de Futebol, pelo amor de Deus, pô. Bota para lavar roupa”. Depois do jogo, Jairzinho desculpou-se nas redes sociais por tal atitude. O que deixa a situação ainda pior é que o ídolo do alvinegro não estava sozinho e ainda assim, os dois companheiros que estavam com ele em nenhum momento reprovaram o que foi dito.


Acredito que a questão de geração não pode ser usada para minimizar o problema, visto que as mulheres não escutam esse tipo de coisa apenas de pessoas com idade mais avançada. Esse discurso é reproduzido por homens e até mesmo mulheres, infelizmente, de todas as idades. É um discurso que continua presente e na maioria das vezes passa despercebido, por vezes visto apenas como uma “brincadeira”. Um discurso que não recebe uma reprovação e sim um silêncio.


O fato é que isso está longe de ser uma brincadeira e não devemos mais aceitar caladas que é “normal” alguém nos dizer qual é o nosso lugar. Ao atingir a Neuza ele também atingiu a mim, a você e tantas outras mulheres que amam o esporte. Frases como essas atingem todas, porque sabemos como é ter de conviver numa roda de amigos ou no trabalho sendo colocada a prova sempre simplesmente por ser mulher. Não nos permitem errar, ou somos perfeitas no que fazemos ou não servimos para fazer aquilo.


É dever de todos combater todo e qualquer tipo de preconceito, não se pode mais achar normal (se é que algum dia realmente pode) esse tipo de fala. Não podemos nos calar quando esse tipo de coisa acontece diante de nossos olhos. O fato de termos nascido num mundo machista não significa que não possamos mudar esse cenário a nosso favor. Lugar de mulher é onde ela quiser! Seja no escritório, na quadra ou no campo. Não cabe a ninguém escolher por nós!

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