• Carla Dayube Nunes

Nós somos elas

Atualizado: há um dia

As mulheres já conquistaram a Presidência da República, agora a vice-presidência. Empreendedoras, mães, inteligentes, poderosas. Mas, dentro de campo, o jornalismo esportivo e o futebol encontram uma enorme resistência em reconhecimento da competência feminina.


O futebol é praticamente um território à parte, onde a cultura tipicamente masculina não consegue disfarçar a sensação de incômodo com a “invasão” do sexo oposto. Hoje, assistimos mais mulheres na TV, dentro de campo, seja jogando ou apitando uma partida, mas ainda assim, a sensação é a de que somos cotistas, quase que uma imposição ao invés de competência. Meras figuras decorativas.


A todo instante temos que trabalhar o dobro para provar nosso valor, nosso conhecimento sobre futebol. As que muito sabem e conhecem, ouvem muito: “Nossa, essa sabe tudo sobre futebol, parece um homem!” – mas por que não melhor? Em alguns casos, como em debates, as mulheres são bonitas ou tratadas como “café com leite”, especialmente quando a conversa se aprofunda em esquemas táticos, impedimentos, escalação etc.


No dia a dia, entre gracejos, indiferenças de jogadores e seu staff, ainda existem as ameaças ou xingamentos nas redes sociais, reafirmando que o ambiente de trabalho nessa área ainda está muito enraizado na cultura machista, naquela em que o “futebol é só pra eles.”


Em 2021? Sério?

O Futebol é para eles, para elas, para nós, para todos! O site Futebol por Elas surgiu em 2016. Uma equipe formada por mais de 20 colunistas de sete Estados diferentes. Jornalistas, engenheiras, historiadoras e torcedoras com o objetivo de levar informação e relatar a magia que o futebol proporciona. E quem é apaixonado por futebol sabe exatamente do que estou falando.


Falamos sobre campeonatos, jogadores, contamos histórias marcantes, é realmente o amor pelo futebol que fala mais alto. Assim como nós, outros sites, canais e blogs incríveis feitos por mulheres surgiram e continuam surgindo para mostrar que somos muito mais do que rostinhos bonitos e que arrasamos em nossos mantos sagrados.


Stuart Franklin / FIFA / Colaborador Ilê Machado / M de Mulher

Esse ano, orgulhosamente, demos ênfase ao futebol feminino e as jogadoras incríveis (que inclusive falam com a gente – só pra informação), e poder presenciar nomes consagrados como Marta e Formiga, a cobertura dos jogos, informações é muito importante para as meninas de hoje. Agora elas sabem que podem ser jogadoras de futebol, treinadoras... abre-se um leque inédito para o futebol.


História

Você sabia que formar um time feminino legalmente só foi possível depois de 1979 aqui no Brasil? De acordo com a antropóloga e diretora do Museu do Futebol, Daniela Alfonsi, esse cenário explícito de proibição de mulheres em esportes iniciou-se com um Decreto-Lei (3199) imposto durante o governo do presidente Getúlio Vargas, em abril de 1941.


O decreto impunha que as mulheres eram proibidas de praticar qualquer esporte que fosse contra sua natureza. Os esportes não eram especificados ou listados, mas o futebol foi imediatamente tido como um esporte proibido, pois era considerado violento, de contato e a mulher não podia participar de atividades muito impactantes, pois poderiam ficar inférteis.


E na época, a visão para as mulheres era de que as mesmas serviam apenas para a maternidade, para gerar os filhos de uma nação. No entanto, elas continuaram jogando no interior de estados como Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul.


O problema

Durante a Ditadura Militar, muitas mulheres que jogavam futebol foram presas e acusadas como cafetinas, pois a reunião de muitas mulheres era algo alusivo à prostituição.


Ler sobre esses fatos são difíceis e suas consequências podem ser sentidas até os dias de hoje. O não desenvolvimento, a não continuação fez com que cada vez mais o esporte fosse visto com masculino e o processo de naturalização para o sexo oposto ficou impossível.


A história não mostrava que as mulheres já jogavam futebol, montavam times, participavam de campeonatos e ligas. E esse desenvolvimento foi interrompido e ficou parado por muito tempo, atrasando o processo para as atletas.


Primeiro Campeonato Feminino da Alemanha (foto: Getty Images)

O decreto foi revogado em 1979, período próximo ao fim da ditadura militar. Porém, a regulamentação da categoria feminina só foi feita quatro anos depois da revogação do decreto. E, ao invés de trazer condições melhores, a regulamentação só reforçava a ideia de que a mulher era o sexo frágil. No regulamento, a trave tinha que ser menor, o jogo só podia ter 70 minutos e a bola tinha que ser mais leve.


Hoje, o cenário para as mulheres no futebol, seja jornalista, árbitra ou jogadora, é bem melhor. E nós continuaremos aqui para garantir que continue evoluindo, como uma mulher faz. #likeagirl

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