• gisellyhorta

Nossa paixão é a mesma

Após bela vitória por 3 a 1 do Real Madrid contra o Liverpool no primeiro jogo das quartas de final da Champions League, a jogadora do time feminino do Real Madrid, Misa Rodriguez, publicou uma foto em sua rede social com a seguinte frase "Misma pasión" (mesma paixão) em comparação a uma foto publicada pelo jogador do time masculino do clube, Marco Asensio. Não demorou muito para que a publicação recebesse inúmeras ofensas machistas.


A goleira do clube merengue apagou a publicação. Em pouco tempo, recebeu o apoio dos seus companheiros de clube, como Asensio, Marcelo, Casemiro, Vini Jr, que replicaram a sua frase, levantando a bandeira de que a paixão é a mesma, o sentimento o mesmo, a alegria é a mesma tanto no futebol masculino como no feminino.


A pergunta que nos faz refletir é como ainda existe espaço para esse tipo de ação preconceituosa no esporte. O amor que o futebol move é caminho de alegria para todas as pessoas, independente de gênero. A goleira do Real Madrid só buscou expressar esse sentimento que não é possível medir, quando se trata de futebol.


ilustração: Loren Stainff

A insistência das mulheres durante todos esses anos é a maior prova de amor pelo futebol, estimuladas pela Nettie Honeyball, que fundou por volta de 1985 o Ladies Football Club, primeiro clube feminino de futebol conhecido da história. Ao ler sobre a "misma pasión", me recordei de uma frase conhecida da escritora e colaboradora na fundação do primeiro clube feminino, Lady Florence Dixie ao dizer "the girls should enter into the spirit of the game with heart and soul" (as meninas deveriam entrar no espírito do jogo com o coração e alma).


Hoje, ter um dos maiores clubes do mundo, como o Real Madrid e o estimulo da UEFA no futebol feminino é motivo de atenção, e por esse investimento é possível observar o progresso nas categorias de base, nos campeonatos e nos programas de desenvolvimento desses setores na Europa. Não existe mais espaço no futebol para machismo. Se as próprias instituições admitiram que é fundamental para o desenvolvimento das categorias no futebol esse investimento nas mulheres, como esse pensamento ainda não chegou a todos os torcedores.


Os números expressivos, a propaganda, o belíssimo futebol apresentado em campo, às inúmeras TVs televisionando o futebol feminino, grandes clubes buscando investir, parece ser desproporcional a crítica vinda de quem acompanha futebol. Esse sentimento vindo do torcedor, desses que optaram em vez de aplaudir a história que a Misa Rodriguez vem construindo, resolveram através do preconceito critica-la, parece não acompanhar o que esse esporte democrático e popular oferece, a paixão.


Dez dias após o acontecido e, coincidentemente na semana que o decreto-lei 3.199 que proibia as mulheres de praticarem determinados esportes entendidos como “não femininos” fez 80 anos, as vozes ofensivas se calaram em meio ao grande apoio que a goleira recebeu dos demais clubes, inclusive brasileiros, e de inúmeros esportistas, sendo capa do jornal Marca. “Misma pasión” se tornou um movimento grande que soa como um grito por liberdade feminina, sendo como uma lupa para desvendar o machismo tão enraizado no esporte que dessa vez não foi silenciado.


Ainda existe um longo caminho pela frente em relação às instituições quando se trata de equidade salarial e discriminação de gênero. A alegria e paixão no futebol deveria ser motivo de colaboração mútua entre homens e mulheres para melhorias e evolução do esporte. Assim esperamos que ocorra, para que as próximas jogadoras não se sintam diminuídas, acuadas e silenciadas ao falar sobre a paixão pelo futebol, porque as meninas estão com o coração e a alma no jogo.


Nós todas também amamos, Misa.

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