• Carla Dayube Nunes

O Clube dos Treze

Não é de hoje que o futebol brasileiro sofre com problemas financeiros e controversos. Na década de 80, no auge de uma crise política e financeira, encontrava-se em plena decadência, com rombos no orçamento, mau gerenciamento, corrupção e inexperiência.


Em 1987, o então presidente da CBF, Octávio Pinto Guimarães, alegou que a Instituição passava por sérios problemas financeiros e administrativos e, por isso, não poderia assumir a organização do Campeonato Brasileiro daquele ano. Surgiu assim, uma organização entre 13 clubes brasileiros com o objetivo de assumir a organização da competição nacional daquele ano, bem como defender interesses políticos e comerciais das maiores agremiações de futebol.


foto: divulgação

Segundo boatos, logo após o anúncio, Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo na época, e Márcio Braga, do Flamengo, fizeram uma ligação e disseram: “Chegou a hora”. De fato, havia chegado o momento de unir os principais clubes brasileiros em uma organização que pudesse dar seguimento ao campeonato nacional e ter sua “voz” ouvida no que dizia respeito aos seus interesses. O nome do torneio, inclusive, seria Copa da União, para celebrar o agrupamento dos clubes.


Os treze originais foram formados por Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos, Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Grêmio, Internacional, Cruzeiro, Atlético Mineiro e Bahia, que na época constituíam 95% dos torcedores brasileiros. Em seguida, atendendo pedidos da CBF, Santa Cruz, Goiás e Coritiba foram incluídos na entidade.


A assembleia começou em pleno sábado, na parte da manhã, no dia 11 de julho de 1987. O então presidente do São Paulo Futebol Clube, Carlos Miguel Aidar, organizou o encontro em um salão dentro do Estádio do Morumbi com os demais dirigentes.


No começo, a ideia funcionou: grande arrecadação e média de público de 20.877 pagantes por jogo. No mesmo ano, representantes do Clube celebraram o “fim do autoritarismo brasileiro”, já que tanto mandatários do Flamengo quanto do São Paulo se negaram a ceder jogadores para amistosos da Seleção Brasileira.


Porém, a própria reunião de assinatura dos contratos, antes da abertura da Copa, antecipou os problemas do Clube dos 13. Brigas por direitos de transmissão, patrocínios e contratos, a falta de vontade de patrocinadores de sustentar apenas alguns dos times, foram combustível o suficiente para iniciar um incêndio na fogueira das vaidades.


A rivalidade também entrou em campo. Começaram a especular que se favorecesse um time, prejudicaria outro, polêmicas de empréstimos de jogadores e rixas antigas. Entre tapas e beijos, desde o começo, em setembro de 1987 Otávio Pinto Guimarães e Eurico Miranda (presidente do Vasco e representante do C-13), assinaram um acordo no qual o campeão brasileiro seria definido em uma quadrangular, realizado entre os vices e campeões da Copa da União.


Sport ou Flamengo?

Nasceu aí a famosa controvérsia, envolvendo Sport e Flamengo. Por opção própria, alguns clubes decidiram não disputar o Campeonato Brasileiro de 1987, organizado pela CBF. A opção alternativa foi criar um torneio à parte, criado pelo C-13, que ficou conhecido como “Módulo Verde”, no qual Flamengo recebeu o título. Entretanto, o campeonato organizado pela Confederação Brasileira de Futebol teve o Sport como campeão.


Então, após a assinatura do acordo, o Flamengo não poderia ser considerado campeão. Sport e Guarani, respectivos campeão e vice do Módulo Amarelo, resolveram na Justiça a validação do acordo polêmico.


Houve uma tentativa de conciliação, mas a TV Globo, mandou um recado de que a emissora estava disposta a bancar a guerra, não a conciliação. Assim, o Clube dos 13 se alia à CBF, acrescentando oito clubes aos 16: América-RJ, Athlético Paranaense, Bangu, Criciúma, Guarani, Portuguesa, Sport e Vitória. E assim, o famoso C-13 ia perdendo sua essência.


A partir daí, a organização se concentrou em apenas uma tarefa: negociar os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. Mas mesmo assim, as controvérsias continuaram. Apesar das brigas e dificuldades de comunicação, o Clube celebrou 10 anos com abertura para mais membros.


Em 2000, a competição se tornou a Copa João Havelange. No ano anterior, o rebaixamento havia sido definido de acordo com a média ponderada entre 22 clubes da Série A em 99 e 98. Os quatro com pior média seriam rebaixados.


Ainda na primeira fase do campeonato, o Supremo Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) tirou os pontos do São Paulo nas partidas contra Botafogo e Internacional pois a equipe Tricolor Paulista escalou o atacante Sandro Hiroshi, com idade falsa. Obviamente Botafogo se salvou do rebaixamento, colocando o Gama em seu lugar.


Até aí nenhum problema, se o time do DF não entrasse com um processo na justiça por conta do ocorrido. Iniciou-se aí uma luta judicial, que teve como solução a organização da Copa João Havelange.


Muitos clubes brasileiros tiveram a chance de serem campeões em 2000. A copa ficou conhecida como Copa Eurico Miranda devido à grande influência do mandatário na competição. Assim, em 2001, a CBF retoma o controle do campeonato e o Clube dos 13, cada vez mais desmoralizado e perdendo força.


A união entre os clubes estava tão enfraquecida e fragilizada que os clubes passaram a tomar posturas independentes e sabotar sua própria organização e regras. Em 2010, o declínio finalmente, começou a ser visível, na ocasião da eleição de presidente do Clube dos Treze entre Fábio Koff e Kléber Leite. Uma entidade que finalmente lutava pela libertação do monopólio da Rede Globo, teve sua licitação por direitos realizada sem a emissora, e a vitória da Rede TV, na reeleição de Koff.


A partir daí, clubes começaram a sair pelas mesmas portas que ajudaram a abrir. E desde então, é cada um por si, como já era no plano de fundo, durante a formação do C-13, onde interesses próprios sempre foram prioridade. O que era para ser uma bela demonstração e iniciativa para ajudar o futebol brasileiro, se corrompeu e se perdeu na própria ganância de seus interesses individuais.

Posts recentes

Ver tudo