• Bárbara Merotto

O poder do microfone

4 de março de 1877. O alemão Emile Berninder criava o primeiro microfone da história. Impressionado com tamanha invenção, Alexandre Graham Bell, faz a compra de sua patente por 50 mil dólares e o aperfeiçoa significativamente, chegando bem perto dos padrões que temos hoje.


Os microfones são transdutores, ou seja, transformam energia acústica em elétrica, pois captam o som de sua voz e o transforma em um sinal elétrico similar às ondas sonoras propagadas no ambiente. Esse sinal elétrico é encaminhado através de cabos a um outro equipamento onde será processado, amplificado, e/ou gravado. Diria também que os microfones têm uma outra importantíssima capacidade, ou até mesmo um poder especial, que é o de transmutar os que o tem em mãos. Muitos assumem a forma de detentores de verdades absolutas com um grau de sanidade supremo, uma vez que quem os escutam não tem outra alternativa que não seja ouvi-los falar.


Porém, os que assumem esse patamar elevado de “portador de microfone” acaba muitas vezes se esquecendo de uma das mais importantes capacidades desse simples objeto: amplificar. Amplifica falas, emoções, ideias, opiniões e até mesmo os pensamentos mais escondidos. Através dele podemos informar, motivar, educar e conscientizar. Pena que com tantas possibilidades positivas, nos últimos dias, muitos de meus colegas jornalistas, narradores e comentaristas esportivos, em posse de seu instrumento de trabalho, o utilizaram, como diria minha saudosa avó, para “vomitar asneiras”. Sobrou falas preconceituosas, misóginas, xenofóbicas e faltou o mínimo que cabe a qualquer ser humano para com o outro: respeito. É imperdoável e vergonhoso que ainda em 2021 a cor da pele do outro, sua origem ou seu gênero se tornem motivos de insulto, ridicularizarão e desrespeito.


lustração do blog ronaldolima.eti.br

Ofensas preconceituosas no mundo do futebol, geralmente tendem a assumir um tom de brincadeira e quando alguém é denunciado por isso, a principal alegação da defesa é de que isso faz parte da cultura do esporte. Não! Isso faz parte de atitudes e falas arraigadas em questões sociais muito mais profundas e que não deve ser tratada como uma mera piadinha de mau gosto, e quando alguém não é responsabilizado, nada muda.


O poder do microfone deveria ser usado com inteligência, não apenas para comunicar e transmitir a alegria que é o futebol, mas também no combate ao preconceito junto aos clubes, patrocinadores, atletas e principalmente na mídia. Usar o microfone para diminuir e ofender atletas do nosso tão glorioso futebol feminino, é no mínimo ofensivo a todas nós, mulheres, que lutamos diariamente por igualdade de direitos. É desmerecer todo um longo processo que ultrapassa a cada dia péssimas condições de trabalho, salários defasados, falta de patrocínio, falta de espaço para os treinos... Esse machismo gratuito e descarado que ofende, que menospreza e que envergonha não deve e não vai deslegitimar a luta e as conquistas de todas essas mulheres incríveis.


Quem, assim como eu, ama futebol, torce e vibra, não ofende, não agride, não humilha, não diminui e não machuca o outro. Estádio é lugar de alegria e de diversão. O microfone, instrumento de trabalho de nós jornalistas, não deve ser instrumento de propagação de preconceito ou machismo. É crime, deve ser denunciado e punido. Racistas, machistas, xenófobos e , o estádio não é lugar para vocês!



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