• Eduarda Porfírio

O retorno irresponsável do futebol no Rio de Janeiro

Atualizado: Jul 24

A decisão foi divulgada durante esta semana, quando o governador do estado carioca Wilson Witzel incluiu o retorno do futebol no polêmico pacto social pela economia e saúde. A deliberação acena com o que o presidente do país, Jair Bolsonaro disse durante uma live na última sexta-feira (22). Segundo Bolsonaro, os jogadores querem retornar ao trabalho. Embora, não tenha dado os nomes aos atletas que manifestaram esse desejo.


De acordo com o documento produzido pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia e Relações Internacionais (Sedeeri) os jogos voltariam a acontecer com até 50% de público nos estádios. Porém, as precauções seriam devidamente tomadas como: distância de dois metros entre cada pessoa, aferição de temperatura dos torcedores e profissionais envolvidos nas partidas, testes disponíveis somente para as equipes de imprensa, times, desinfecção dos estádios e materiais usados. Sem esquecer do uso obrigatório de máscara.


Bolsonaro acredita que isso vai ajudar a manter as pessoas em casa. Pois, o que falta para o cumprimento efetivo do isolamento social é justamente aquele futebol na televisão aos fins de semana. O presidente aposta no esporte como ópio do povo. No entanto, tal decisão não pode só levar as pessoas a se aglomerar nos locais das partidas, como em bares e nas casas uns dos outros.


O pior é que grande parte das equipes cariocas quer o retorno, uma vez que - com exceção do Botafogo e do Fluminense - a maioria assinou o documento emitido pela Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj). A instituição já havia criado um protocolo para o regresso de treinos e posteriormente de jogos.


Não obstante, o Flamengo voltou a treinar também nessa semana. O rubro-negro tentou se justificar, alegando que estava amparado judicialmente e segue um planejamento de treinos. O que não impediu a sensatez do Ministério Público do Trabalho de abrir um inquérito e pedir explicações por parte do time. Não entendo a necessidade de um clube precisar tanto voltar as atividades se praticamente todos os campeonatos estão parados.


O Brasil quer seguir o exemplo de outros países que estão retomando as competições. Mas esquece que isso está acontecendo devido a diminuição expressiva dos casos da Covid-19. Mesmo um campeonato grande como a Bundesliga recomeçou a portões fechados na Alemanha - que voltou a registrar um aumento de infectados nas últimas horas.


Os certames do leste europeu, na Armênia, República Tcheca e Hungria retornam neste sábado (23). São locais com população menor do que as outras nações europeias, entretanto, ao comparar-se o número de mortes por 100 mil habitantes a diferença é clara. Não chega nem a cinco pessoas, conforme dados da Universidade Anthony Hopkins apurados pela BBC.


Além disso, diferentemente da nação tupiniquim, esses lugares iniciaram o isolamento social e seguiram as medidas de precaução assim que os primeiros casos surgiram em março. Visto que sabiam o que poderia acontecer com o sistema de saúde se não fizessem algo para evitar a disseminação do vírus.


Enquanto isso a taxa de ocupação em UTI’s no Rio de Janeiro chega a 86%. E a previsão não é das melhores, embora o prefeito Marcelo Crivella demonstre fé em crer que a curva do coronavírus está diminuindo. Contudo, o painel para acompanhar a evolução da doença - feito pela própria prefeitura - indica o contrário.


Os casos seguem em ascensão. A projeção para o início de junho é que cheguem a 40 mil, de acordo com Instituto de Matemática da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As mortes também seguem o mesmo caminho, consoante a secretaria estadual de Saúde.


É dentro desse contexto que querem voltar com o futebol. Crivella ainda tentou contornar a situação, relatando para o G1 que os dados são referentes ao mês passado. Mas, ainda assim não seria meio cedo para implantar uma flexibilização? E ainda permitir aglomerações pela cidade?


O prefeito irá se reunir com os clubes no domingo (24), para discutir o regresso do futebol carioca. É no mínimo irresponsável que diante de um quadro como esse os governantes do Rio de Janeiro se comportam como alienígenas. Talvez estejam dentro do recente universo descoberto pela Nasa e estejam vendo os dados todos ao contrário.

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