• Karoline Tavares

Quando um cartão vermelho se torna fichinha

Neste texto, tentarei resumir um fato de conhecimento de boa parte dos torcedores de futebol no mundo, apenas para que possamos fazer uma pequena reflexão ao final. Parque dos Príncipes, domingo, dia 13 de setembro. O que deveria ser apenas mais um jogo da segunda rodada da Ligue 1 (ou Campeonato Francês, como prefira), entre Paris Saint-Germain e Olympique de Marselha, se transformou em uma completa confusão pouco antes do apito final. O gol, marcado por Florian Thauvin aos 31 minutos, ficou esquecido no primeiro tempo.


Cinco jogadores terminaram expulsos. Dentre eles, Neymar, que estava irritado desde minutos antes com o zagueiro Álvaro González, mas, até então, não sabíamos o que havia acontecido. Entendemos apenas depois, quando o brasileiro veio a público e disse que o jogador espanhol o chamou de macaco, seguido de um xingamento. O cartão vermelho recebido pelo atacante do PSG acabou sendo nada perto do abalo emocional proporcionado pela situação.


Ainda bastante revoltado (com toda a razão), Neymar foi ao Twitter e afirmou: "Único arrependimento que tenho é por não ter dado na cara desse babaca". Além disso, disse que por muito menos ele já foi expulso na carreira, enquanto o agressor racista ficou impune.


Logo depois da partida, o próprio Álvaro González foi ao Twitter, publicou uma foto ao lado de colegas de equipe negros e disse: "Não existe lugar para o racismo", além de ter insinuado que Neymar fez a acusação por não saber perder. Dois dias depois, o presidente da Federação Francesa de Futebol (FFF), Noël Le Graët, garantiu que não existe racismo no futebol, porque "quando um negro faz um gol, todo o estádio aplaude".


No final das contas, Neymar pegou um gancho de dois jogos pela agressão a Álvaro González, enquanto o zagueiro espanhol segue sendo investigado.


Depois de prestar atenção em cada detalhe desse fato (e de tantos outros, como quando Taison foi suspenso por ter reagido às ofensas racistas vindas da arquibancada ou quando o ginasta Ângelo Assumpção perdeu o emprego por denunciar o racismo no clube onde atuava), chegamos a uma conclusão preocupante, mas que infelizmente é corriqueiro: sofrer com racismo é padecer duplamente. Além da violência praticada pelo racista, existe a possibilidade de o seu agressor ficar impune. O posicionamento de Le Graët, por exemplo, enquanto presidente da FFF, diz muito sobre como a maior entidade do futebol nacional trata a questão. Afinal, se não existe, por que aquilo deveria ser considerado um problema?


Essa é uma problemática sobre a qual eu poderia fazer vários parágrafos, mas acredito que fica mais do que claro que a omissão dos "chefões" das entidades esportivas - seja uma federação, uma confederação, um clube - dá aval para que situações como essa aconteçam. Enquanto isso, muitos homens e mulheres que passam pelo mesmo (ou coisas ainda mais graves) diariamente se recolhem, deixam de denunciar, com medo de sofrer represália e ter os sonhos da carreira destruídos. E assim, o ciclo de opressão se mantém bem alimentado.

0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Receba as novidades

do Futebol Por Elas

  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle