• Carla Dayube Nunes

Quanto custa uma vida de sonhos em um ninho vazio?

A Justiça do Rio de Janeiro extinguiu na última quarta-feira (2), a pensão que o clube havia sido obrigado a pagar para as famílias das vítimas do incêndio ocorrido no Ninho do Urubu.


O incêndio que atingiu o Centro de Treinamento do Flamengo, em Vargem Grande (zona oeste do Rio de Janeiro), na madrugada de 8 de fevereiro de 2019 ceifou a vida de 10 jovens e deixou três feridos, todos jogadores da categoria de base do clube. Athila Souza Paixão, Christian Esmério, Bernardo Pisetta, Pablo Henrique da Silva, Arthur Vinícius de Barros Freitas, Samuel Thomas de Souza Rosa, Jorge Eduardo dos Santos, Rykelmo de Souza Viana, Gedson Santos e Vitor Isaías são os jovens que perderam suas vidas na tragédia.


Muito mais do que somente nomes: sonhos interrompidos, futuros, sucessos, esperanças, crianças. Eu pergunto novamente: O quanto vale uma vida de sonhos em um ninho vazio? Quanto custa aquela cama vazia em casa? Aquele gol que não vai ser comemorado na TV? Aquele coração na tela ou “ãe, te amo!”?


Um time vencedor de Libertadores, vice-campeão do Mundial, uma seleção. Colocou o futebol no tribunal. Pisou na ferida das famílias que confiaram algo muito mais precioso do que as cifras podem pagar: vidas. É bem difícil ser imparcial perante uma situação dessas, pois me coloco no lugar de mãe de um menino que já sonhou em ser jogador de futebol.


O dinheiro me traria meu pedaço de vida de volta? Com certeza não. Eu tenho certeza de que a pobreza financeira não se compara à perda. Não, o dinheiro não poderia jamais trazer um filho de volta, mas o que seria justiça então nesse caso? O fruto dos sonhos, do trabalho, da distância de casa, o dinheiro é o mínimo que se pode ser feito nesse momento.


De acordo com a decisão da justiça, nos casos onde ainda não houve acordo com o Flamengo e o atleta falecido fosse já maior de idade hoje, a pensão será extinta. Com as famílias dos jogadores que ainda seriam menores de idade (e também sem acordo extrajudicial), a Justiça reduziu a pensão de R$ 10 mil para cinco salários mínimos, em valor atual, R$ 5.225,00.


O clube rubro-negro argumentou que não cabe à Defensoria e ao MP do Rio defender os familiares. O placar foi de 2 x 1 pelo fim da pensão, a maioria dos desembargadores optaram pela extinção do direito das famílias. Com certeza, esse placar não é favorável ao Flamengo.


Agora, a ação principal do caso é o que resta. Além do pedido principal de danos morais coletivos e individuais a ação também cobra os valores de indenização. O resultado, no entanto, torna mais difícil uma reparação sem ser por um acordo com o clube.


(foto: MAURICIO ALMEIDA/AM PRESS & IMAGES/ESTADÃO CONTEÚDO)

Em nota oficial, o clube de regatas esclarece que a questão judicial julgada reconheceu que o Ministério Público não pode representar individualmente as famílias, haja visto que os pais são maiores e capazes de serem representados por advogados. Assim, o clube alega que tornou ilegítima a ação do MP para agir individualmente em prol de terceiros, e reafirma que o Flamengo continuará prestando assistência material mensalmente às famílias e está aberto a fazer acordo, como já fez com seis famílias e meia.


Ao recorrer, se recusar a pagar ou reduzir o valor, o clube está ignorando o que aconteceu, diminuindo, tentando varrer para debaixo do tapete uma tragédia que jamais será esquecida. Perder para o Racing, ou São Paulo, isso passa. Uma das maiores derrotas da história do Flamengo foi decidida quarta-feira (2), no tribunal. Que o fanatismo não nos cegue perante o absurdo.

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