• Bárbara Merotto

Sócrates: futebolista, artista e revolucionário!

Certa vez Sócrates, o filósofo, disse que “a alegria da alma constitui os belos dias da vida seja, qual for a época”. E o nosso “Doutor” Sócrates trazia essa alegria não apenas na alma como também levou alegria a muitos corações corintianos.


Hoje, 19 de fevereiro, o “Doutor”, como era conhecido nos gramados, estaria completando 66 anos de vida. Filho de funcionário público, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, nasceu em Belém, no Pará em 1954. Filho de Dona Guiomar e do Seu Raimundo, Sócrates recebeu este nome por conta da paixão que seu pai tinha pela leitura, tanto que, três dos seis filhos receberam seus nomes em homenagem a personagens da literatura grega: Sócrates, Sóstenes e Sófocles. Confusa com os nomes parecidos, a mãe, dona Guiomar, se irritou e disse ao marido que nem conseguia mais saber qual filho era qual. Então, seu Raimundo decidiu usar o próprio nome como inspiração. Vieram então Raimundo Junior, Raimar e Raí, que também se tornaria um dos grandes nomes do futebol brasileiro. Aos dez anos, Sócrates presenciou uma cena que talvez, mesmo que ainda criança, mudaria sua visão de mundo dali para frente: assistiu o pai queimar todos seus preciosos livros logo após o anúncio do Golpe Militar de 64.


Desde menino um apaixonado por futebol - Foto: Museu da Pelada

Estudante do colégio Marista, em São Paulo, era integrante da equipe de futebol da escola. Com 17 anos, estatura elevada e corpo franzino, aquele garoto de quase 1,90 e até meio desengonçado, já fazia parte do time principal do Botafogo de Ribeirão Preto, ao mesmo tempo em que ingressava na faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo na mesma cidade.


Sócrates quase não tinha tempo para os treinos por conta da faculdade e ainda levava uma certa desvantagem física em relação aos outros colegas de equipe mais bem preparados. Porém como ele mesmo contou no livro "Recados da Bola", de Jorge Vasconcellos, ele sempre dava seu jeitinho de jogar.


“Comecei a jogar dando só um toque na bola. Recebia e passava, porque não podia ter contato físico. Não tinha estrutura muscular para isso: era muito alto e magro. O que pudesse usar eu usava para dar apenas um toque – bunda, joelho, cotovelo e, o que acabou por me caracterizar, o calcanhar. Era um processo de sobrevivência. Foi uma solução minha e passei a me aprimorar”.

O toque de calcanhar: simples, certeiro e genial!


"Quero mudar meu país, quero mudar meu povo, sempre."

Sócrates foi um craque que ousou sempre ser diferente. Dava poucos toques na bola, não desperdiçava nenhum e assim ganhava cada vez mais destaque no futebol paulista. Ao lado de Zé Márcio, outro grande jogador do Botafogo de Ribeirão Preto, Magrão conquistou a Taça Cidade de São Paulo, que em 77 era equivalente ao primeiro turno do Campeonato Paulista, se tornando naquele ano, o principal jogador da equipe botafoguense. Já formado em medicina, em 1978 chega ao Corinthians, onde permaneceria por seis anos. Sócrates conquista a torcida ao fazer com que um time pressionado pela falta de títulos se tornasse uma equipe que conquistaria o Campeonato Paulista em 79 e o bicampeonato de 82/83, consagrou-se assim, um dos maiores jogadores da história do clube, dentro e fora dos gramados.


Camisa de 83 Democracia Corintiana - Foto: Estadão

Em 1980, Sócrates, Wladimir, Casagrande, Zenon e outros ex-atletas do Timão participaram da campanha pela volta do direito ao voto para presidente, o que não acontecia desde 1960. Além disso, as principais decisões do clube também passaram a ser decididas em conjunto, todos os votos tinham peso, desde o roupeiro à equipe técnica. Escolhiam técnico e os horários dos treinos, participavam das eleições do clube e aboliram a obrigatoriedade da concentração. Tinha início a Democracia Corinthiana. O nome foi criado pelo publicitário Washington Olivetto, que desenvolveu uma marca inspirada na grafia da Coca-Cola e tendo sua arte estampada na camisa alvinegra em algumas partidas. O uniforme do Timão de 82 foi tão emblemático, que em abril do ano passado esteve no ranking das 50 camisas mais lendárias na história futebol mundial da revista France Football, uma das mais importantes quando o assunto é futebol.


Sócrates com Juca Kfouri nas Diretas Já - Foto: Folhapress

Fora do futebol, Sócrates sempre manteve uma ativa participação política. Tinha ideais socialistas e era admirador do regime cubano – o mais novo de seus filhos recebeu o nome de Fidel, em homenagem ao líder Fidel Castro. Participou do movimento das Diretas Já e fez a campanha pela ementa Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para a escolha do presidente do país, e por suas atividades e opiniões políticas teve seu nome fichado pela ditadura juntamente com seu amigo de equipe Casagrande.


A emenda não passou, pois, embora aprovada pela maioria da população na época foi reprovada em votação no Congresso e Sócrates acaba indo embora para a Itália para jogar na Fiorentina. Os maus resultados do time em campo, a criação do Clube dos 13 e outras mudanças no elenco acabaram por minar o movimento. Idolatrado na chegada ao time italiano, não conseguiu se firmar na Europa. Jogou apenas uma temporada e retornou ao Brasil como grande reforço do Flamengo aos 32 anos.


“Enquanto eu jogar futebol, as minhas pernas amplificavam minha voz."

Foram 172 gols em 297 jogos pelo Timão. Mas não foram somente suas exibições no Corinthians que chamavam a atenção. Estreando na Seleção Brasileira em 1979 sob o comando de Telê Santana, o jogador brilhou ao lado de Zico e Cerezo, porém duramente castigado com a eliminação para a Itália na Copa de 82. Com a camisa amarela, cumpriu um total de 63 jogos e marcou 24 vezes, entre 1979 e 1986, ano em que disputou seu segundo Mundial. Em 1985, Sócrates foi negociado com o Flamengo e em seguida, Sócrates teve uma breve passagem pelo Santos, de 1988 a 1989 e ainda em 1989 ele se despediu do futebol finalizando simbolicamente sua brilhante trajetória desportiva onde tudo começou, no querido Botafogo de Ribeirão Preto.


Sócrates estreava com a Seleção Brasileira em 17 de maio de 1979 - Foto: CBF divulgação

Já foi eleito “O Craque do Ano” da Revista Placar, “Melhor Jogador Sul-Americano” pelo Jornal El Mundo e esteve na lista The Joy of Six entre os seis esportistas mais inteligentes da história pelo jornal britânico The Guardian em 2015. Sócrates era um artista da bola, que jogava pelo puro prazer de jogar. Dono de um calcanhar de ouro e de passes primorosos, foi ainda técnico, articulista da revista Carta Capital, do jornal São Paulo, comentarista do programa Cartão Verde na TV Cultura, gravou um LP de música sertaneja chamado Casa de Caboclo , produziu uma peça de teatro Perfume de Camélia e ainda fez participações especiais na TV e no cinema. Sócrates pode não ter sido um atleta na concepção da palavra, pois sempre bebeu e fumou. Ele sempre se colocou como “mais um”, uma pessoa normal, com erros, defeitos e qualidades também.


Casou-se quatro vezes e teve seis filhos: Rodrigo, Eduardo, Marcelo, Sócrates Jr., Fidel e Gustavo. O uso abusivo do álcool e do cigarro levou nosso “Doutor Sócrates” em 04 de dezembro de 2011, aos 57 anos. Saiu de cena mas ficou a história de um homem que não foi apenas um grande jogador, mas também um grande cidadão brasileiro.


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