• Bárbara Merotto

Sahar Khodayari, a 'Blue Girl'

Há 80 anos, em 14 de abril de 1941, as mulheres eram proibidas de praticar futebol no Brasil, onde eram vistas como incapazes e frágeis demais para a prática esportiva, uma vez que tal esporte era “incompatível com as condições de sua natureza”. Foram 40 anos impedidas oficialmente de jogar futebol. Não é segredo pra ninguém que ainda hoje, a conquista pelo nosso espaço em campo ainda é tarefa árdua. Vem carregada de preconceitos, estereótipos e falas machistas Quem vê hoje, nós mulheres frequentando estádios, torcendo “livremente” para seu time de coração, jogando ou trabalhando em campo, acredita que, essa proibição de 1941, é um tempo distante, porém muitas mulheres precisaram lutar e ainda lutam para que hoje tenhamos esse direito.


Irã, setembro de 2019. Uma jovem de 29 anos ateia fogo no próprio corpo diante do Tribunal Revolucionário Islâmico de Teerã, após ser processada por tentar entrar em um estádio de futebol disfarçada de homem. Ela era Sahar Khodayari. Torcedora do Esteghlal, de Teerã, e que em março daquele ano só queria assistir ao jogo do seu time de coração. O problema é que ela vivia em um país onde mulheres ainda não podem frequentar livremente estádios de futebol, pois elas assistirem a jogadores com as pernas desnudas é considerado um ato pecaminoso. O que para nós é considerado banal, para os conservadores daquele país, jogadores “seminus” e levando em conta o que “passa na cabeça das mulheres”, seria uma incitação ao pecado, além de, a presença de mulheres poderia causar a distração dos jogadores em campo, o que acabaria prejudicando o time.


A ativista Sahar Khodayari (foto: Instagram / divulgação)

Nem sempre foi tão duro ser mulher no Irã. Muito do que acontece hoje é fruto da Revolução Islâmica que ocorreu na década de 1970 e que colocou os preceitos religiosos do islamismo acima dos direitos democráticos. Desde 1940 o país era governado pelo xá Reza Pahlevi e seu governo, o modo autoritário como conduzia o Estado e sua afinidade com os países ocidentais, gerava muitas críticas dos que eram contra o governo. Seu principal opositor era o líder religioso Aiatolá Ruhollah Khomeini, que mesmo exilado em Paris comandou toda a revolução.


Deposto em 1979, o xá Pahlevi fugiu do país, o Irã foi declarado uma República Islâmica e Khomeini assumiu o cargo de chefe religioso e governante do país agora teocrático. Antes da revolução as mulheres iranianas estavam conseguindo conquistar, ainda que de forma lenta, seus direitos e seu espaço no país, a partir de 79 tudo retrocedeu. A volta obrigatória do uso do hijab (véu islâmico) pelas mulheres, independente de sua religião ou nacionalidade, mudança em suas vestimentas que antes eram bastante ocidentalizadas, não podem viajar sem a permissão do marido, não podem usar roupas de banho nas praias, homens e mulheres não podem rezar no mesmo espaço e elas devem sentar na parte de trás do ônibus. No Irã as mulheres são inferiores por lei! A sharia, estrutura legal dentro do qual os aspectos públicos e privados da vida do adepto do islamismo são regulados, coloca nós mulheres abaixo dos homens.

Manifestação pró-hijab em Teerã, em 2006 (foto: Getty Images)

Em 2005, foi formada uma seleção feminina de futebol que chegou a conquistar uma vaga para as Olimpíadas de Londres em 2012. Mas até mesmo as meninas da seleção iraniana passam por dificuldades pelas leis restritivas que as impedem de praticar o esporte, como por exemplo a obrigatoriedade do uso do hijab nos jogos e a autorização do marido para viajar quando as partidas são fora do país, o que muitas não conseguem.


Desde que a Arábia Saudita derrubou o veto da presença de mulheres em estádios em 2018, apesar das pressões da Fifa, o único país do mundo ainda a impedir a presença feminina em eventos esportivos, é o Irã. Sahar, uma apaixonada pelo Esteghlal, só não queria ser presa. Ela só queria ter o mesmo direito que nós temos, de ir ao estádio livremente torcer pelo seu time vestida com sua camisa azul, sem correr o risco de ser agredida ou detida. Sahar ficou três dias presa e sua audiência teria sido marcada para o início de setembro. Ao chegar no tribunal, descobriu que haviam adiado, porém, soube que caso não assinasse um termo se comprometendo a não entrar mais em estádios, poderia ser sentenciada de seis meses a dois anos de prisão. Indignada, saiu do tribunal e jogou gasolina em suas vestes e ateou fogo, causando queimaduras gravíssimas em 90% do seu corpo, levando à sua morte uma semana depois.


Em um comunicado , a FIFA enviou condolências à família Khodayari e disse que reitera seus "apelos às autoridades iranianas para garantir a liberdade e a segurança de todas as mulheres envolvidas nesta luta legítima para acabar com a proibição de estádios para mulheres no Irã". “Blue Girl”, como ficou conhecida, se tornou uma mártir e impulsionou uma vitória para as mulheres iranianas. Um mês após a sua morte, pela primeira vez em quase quatro décadas, um pequeno grupo de mulheres teve permissão para assistir a um jogo de futebol profissional num estádio iraniano, numa partida entre o Irã e a Bolívia. Sem risco à sua liberdade, sem ser contra lei e sem a necessidade de um disfarce masculino.


Iranianas vão aos estádios na Copa da Rússia de 2018 (foto: Fifa / divulgação)

Ainda hoje, nós mulheres somos proibidas de frequentar os estádios no Irã, com exceção de alguns eventos internacionais. Mulheres iranianas são símbolos de resistência. Num país onde o próprio governo é o maior inimigo da igualdade de direitos, o simples ato de puxar o véu para trás para mostrar o máximo possível de seu rosto e seu cabelo já se torna um ato de protesto.


Assim com Sahar Khodayari, a maioria das mulheres iranianas não medem esforços para conquistarem sua liberdade e há também as que apoiam o rígido sistema, mas o que cabe dizer aqui é que isso deveria ser uma decisão da própria mulher e não do Estado. E que elas saibam que não estão sozinhas, essa luta deve ser de todos nós!

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