• Eduarda Porfírio

Saudade do que a gente não viveu

Era madrugada de domingo 30 de julho de 2002. A família havia acordado pontualmente para reunir-se na sala de casa e ver a temida final contra a Alemanha. O confronto que se tornaria histórico independente do resultado, afinal era a primeira vez que as duas seleções se enfrentavam. Já eu não tinha ideia do que estava acontecendo, devia estar sonolenta na época e enfezada por ter sido acordada de um soninho tão bom. Era apenas uma garotinha de três anos que nada sabia de futebol ainda.


Posso não lembrar desse dia, mas posso imaginar como tudo ocorreu: minha mãe fez o penteado de sempre em meus cabelos cacheados e muito embaraçados, amarrado em um par de maria-chiquinhas verde-amarelas. Vestia a blusa do Brasil, muito provavelmente do Ronaldo Fenômeno, porque lembro de gostar dele e defendê-lo até fim mesmo quando falhava em campo. Logo saímos da sala de casa e fomos para a rua enfeitada, onde algum vizinho tinha colocado a televisão na calçada para que todos pudessem apreciar aquele espetáculo.


Talvez nem tivesse prestado atenção em como aquele jogo foi difícil. No modo como Ronaldinho não estava no melhor dia - justo em uma partida decisiva - e tinha deixado a desejar, aindo tarde demais do jogo. Ou ainda, na Alemanha que apesar de ameaçar algumas finalizações com jeito mais duro de jogar, nem um pouco parecido com o time que mandaria sete bolas fáceis pela trave canarinha na semifinal de 2014.


Ver o Klose, ainda novinho e magro em início de carreira, buscar com a equipe o quarto título. Somavam 12 anos já desde o último mundial que a Alemanha tinha alcançado. Porém, a sede não foi suficiente para a raça dos futebolistas brasileiros. Não se é impressão, mas o time de Felipão parecia ter mais vontade de jogar naquela época. Nem mesmo uma queda ou um pisão eram capazes de frear Rivaldo e companhia.


Eram dias em que zagueiros subiam ao ataque com facilidade e não vacilavam na defesa. Parece até fantasioso e mitológico, senão existissem vídeos para me provar, não acreditaria. É um tanto frustrante que essas lembranças não tenham ficado do dia original, mas sim de reprises vistas no Youtube posteriormente. E sempre que as vejo, tento pensar como teria sido essa madrugada. Bate até uma nostalgia estranha, uma saudade de algo que parece que não vivi.

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