• Bárbara Merotto

Semana do Goleiro: René Higuita, “el loco”

Roupas coloridas, cabelos longos e cacheados e defesas extravagantes que inovou o sinônimo de defesa no futebol mundial. José René Higuita Zapata, nasceu no dia 27 de agosto de 1966 em Medelín, Colômbia. A infância do menino José no bairro pobre de Castilla, não foi fácil. Não chegou a conhecer seu pai e com a morte da mãe Maria logo após seu nascimento, foi criado pela avó Ana Felisa. Ainda criança, fazia vários bicos para ajudar no sustento da casa. Conta a história que seu primeiro contato com as traves foi ainda na escola, quando durante uma peneira para o Independiente Medellín, o então atacante assumiu o gol em substituição ao titular e de lá pra cá, nunca mais saiu.


Equipe do Nacional campeã da Libertadores em1989. Foto: Arquivo Atlético Nacional

Com apenas 1,72m de altura, estatura que era considerada baixa para um goleiro, Higuita começou sua carreira profissional pelo Millonários, de Bogotá, em 1985, aos 19 anos, assumindo o lugar do argentino Alberto Vivalda, que também se destacava com suas jogadas com os pés. Em 1986 transferiu-se para o clube onde conquistou seus principais títulos, o Atlético Nacional, e logo ganhou o apelido de “El Loco” pelas suas saídas e defesas que deixavam qualquer torcedor colombiano com o coração nas mãos. No Nacional foi campeão da Copa Interamericana em duas ocasiões (1990 e 1997) e a Copa Libertadores da América, em 1989 quando derrotou nos pênaltis o paraguaio Olímpia, na final.


Sua trajetória na seleção colombiana teve início na Copa América de 1987 onde terminaram o campeonato em terceiro lugar. Titular absoluto de Los Cafeteros, Higuita teve momentos marcantes, não apenas no futebol colombiano, mas no futebol mundial. O arqueiro já fazia muito sucesso na Colômbia, mas o mundo só foi conhece-lo na Copa do Mundo de 90 na Itália. Até meados da década de 80, o futebol colombiano não havia conseguido muito destaque no futebol sul-americano e não conseguia se destacar diante dos grandes Brasil, Argentina e Uruguai, tanto que só havia conseguido se classificar para a Copa do Mundo de 1962, onde acabou não se classificando nem para a segunda fase do Mundial. Comandada por Francisco Maturana, a seleção colombiana de 90 contava com um time de peso, entre eles, o craque meio-campista Carlos Valderrama com sua vasta cabeleira loira, o volante Freddy Ricón que muitas vezes também fazia as vezes de atacante, Faustino Asprilla, um atacante dono de passes extraordinários, e o elástico, habilidoso e às vezes muito audacioso, o goleiro Higuita.


"Se te disserem para não sair, não saia". Foto: Twitter René Higuita

A seleção colombiana era vista como uma das boas surpresas da Copa. Porém já nas oitavas “El Loco”, conhecido pelas saídas habilidosas do gol com a bola nos pés, dessa vez um drible malsucedido no atacante Roger Milla de Camarões, já nos acréscimos, perdeu a bola e acabou levando o segundo gol camaronês, o que levou à eliminação da seleção colombiana da Copa. O erro do goleiro sul-americano rendeu até ameaças de morte não só para ele como para todo time na sua terra natal. Apesar da frustração pelo resultado de 30 anos atrás, recentemente o ex-goleiro, de forma bem-humorada, quis utilizar a lembrança em suas redes sociais para reforçar o recado de isolamento. "Hoje me mandaram muito esta imagem. Se esta foto serve para tomar consciência, também vou utilizar. Primeiro, a saúde. Se pode fazer suas coisas de sua casa, não saia. Se te disserem para não sair, não saia", escreveu o goleiro.


Após prisão, é suspenso da Copa de 94

Para entendermos essa passagem conturbada na vida do craque Higuita, devemos voltar um pouquinho no tempo. Muitos indícios dos anos 1970 e 1980, apontam para a influência de diferentes cartéis de drogas em clubes de futebol na Colômbia. Podemos citar por exemplo, os irmãos Orejuela com o América de Cali e de Gonzalo Gacha, conhecido como “El Mexicano”, com o Millonarios de Bogotá. Mas talvez a relação mais explícita tenha sido a ligação do narcotraficante Pablo Escobar com os clubes de Medellín, principalmente com o Nacional de Medellín.


Reportagens da época dizem inclusive que muito do sucesso do time nos anos 80, se deu pela grande influência de Escobar. O dinheiro investido nos clubes, vinha principalmente da lavagem de dinheiro do tráfico. A história conta de subornos, ameaças e até assassinatos relacionados a esses “investimentos” nos clubes de Medellín. É claro podemos estar cometendo um grande erro ou desmerecendo o grande futebol colombiano, em acreditar em tudo que se fala de Escobar e sua relação com o futebol, mas por outro lado, também estaríamos sendo ingênuos em ignorar completamente esta influência.


Higuita alojado na Prisão Nacional Modelo “Patio Quinto” em Bogotá. Foto: El Grafico

Higuita chegou a visitar Escobar em La Catedral, prisão que Escobar construiu para si, e já declarou que foi um “amigo leal” do narcotraficante e que conheceu seu lado mais humano. “Eu conheci militares, paramilitares e guerrilheiros, todos eram colombianos e eu conheci seus corações. Eu também conheci Pablo Escobar e seu coração, com todas as suas dificuldades e inconvenientes, mas também a sua parte humana”, afirmou em entrevista ao jornal Peru 21 em 2015. Para Higuita, essa amizade lhe custou a Copa de 1994. Em 1993, após ser acusado de participar do sequestro de uma menina organizado pelo traficante, o goleiro foi levado algemado de helicóptero para Bogotá e, segundo ele, foi pressionado a entregar o narcotraficante. Ficou preso por seis meses, acusado na Lei 40 (antissequestro). Para o ex-goleiro, ele foi usado como bode expiatório e acabou processando o Estado, mas esses meses na prisão acabou o deixando fora da Copa de 94.


A defesa do escorpião

Um dos maiores lances da história do futebol completará 26 anos no dia 7 de setembro. O palco foi o estádio de Wembley, durante uma partida amistosa entre Inglaterra e Colômbia. Depois de uma troca de passes entre os jogadores ingleses, a bola chega aos pés do meia Jamie Redknapp que chuta em direção ao gol colombiano. Então, para surpresa da torcida, telespectadores e até dos narradores ingleses, Higuita faz a defesa com a parte de trás dos pés enquanto o corpo ainda está no ar. O lance de 1995 ficou conhecido como "Defesa do Escorpião".



O que muitos não sabem é que Higuita já havia feito o escorpião para um comercial de TV de um suco instantâneo. No comercial, um garoto tenta fazer um gol de bicicleta no goleiro e este a defende justamente coma defesa do escorpião. Aqui você pode assistir a propaganda de 1990.


Outra curiosidade, que o próprio René Higuita revelou anos depois que ele só realizou a defesa dessa forma, pois segundos antes havia visto o auxiliar levantar a bandeira de impedimento. Curiosamente, após a defesa, o auxiliar baixou a bandeira e o lance seguiu normalmente.


Higuita marcou 41 gols em sua carreira profissional, sobretudo em cobranças de pênaltis e também alguns de falta, sendo o terceiro goleiro com mais gols na história do futebol. Real Cartagena, Atlético Junior, Deportivo Pereira, Real Valladolid e pelo mexicano Deportivo Veracruz.Hoje atua como embaixador do Atlético Nacional, de Medellín, e participa também de eventos da Fifa.Se despediu dos gramados em 2010, aos 43 anos em uma partida que reuniu diversos amigos e cerca de 21 mil pessoas em Medellín. Para o delírio do público presente, o goleiro repetiu a defesa escorpião naquela partida!


Quem teve o prazer de ver Higuita em campo, se deliciou com lances audaciosos e ao mesmo tempo geniais. Foi muitas vezes criticado e acusado de irresponsável por muitas vezes colocar o jogo em risco. Mas para a grande maioria dos colombianos e amantes do futebol José René Higuita Zapata, ou simplesmente Higuita, foi um dos maiores goleiros que o mundo já viu e não poderia ficar de fora da nossa homenagem a todos aqueles que fizeram história embaixo do travessão.


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