• Éllen Gerber

Tim Howard e a terapia do futebol

Você deve se lembrar da extraordinária atuação do goleiro estadunidense, que virou notícia de destaque (mesmo com a eliminação) ao fazer 16 defesas na partida contra a forte seleção belga na Copa do Mundo de 2014, e que cravou o seu nome como o responsável por realizar mais defesas em uma partida na competição desde 1966. Estamos falando de Timothy Matthew Howard, mais conhecido como Tim Howard - nascido em seis de março de 1979 nos Estados Unidos.


Apesar de também jogar basquete, sua trajetória no futebol teve início em 1997 no North Jersey Imperials. Não demorou para que o Manchester United se interessasse pelo garoto e o contratasse em 2003. Foi lá que conquistou uma Copa da Liga Inglesa e uma Supercopa da Inglaterra. Contudo, quanto mais aparecia, mais era notável que Howard (diagnosticado por volta dos 11 anos de idade) sofresse de um transtorno conhecido por ter como sintomas, ainda que não em todos os casos, movimentos completamente compulsivos e falas involuntárias, chamado de Síndrome de Tourette. Parte da torcida e da imprensa chegou a justificar as falhas do goleiro como resultado de sua síndrome, subestimando a sua incrível capacidade e dando espaço ao preconceito.


Emprestado ao Everton por conta da contratação de Van der Sar com o Manchester, Tim sagrou-se ídolo dos Toffees permanecendo no clube por 10 anos, onde conquistou o vice-campeonato da Copa da Inglaterra 2008/2009. Defendeu por três anos o Colorado Rapids e mesmo após anunciar sua aposentadoria em 2019, defende atualmente a equipe do Memphis 901 FC. Pela seleção de seu país, conquistou a Copa Ouro da CONCACAF três vezes e foi reconhecido como o melhor goleiro da Copa das Confederações de 2009.


Tim Howard com certeza é um grande exemplo de resistência. Portador de uma síndrome que apesar de ser comum, requer técnicas de relaxamento pessoais, terapia e até mesmo o uso de antipsicóticos, mas que não tem cura, não abaixou a cabeça quando foi motivo de risadas. Através da dor do preconceito e até mesmo a dificuldade de autoaceitação construiu seu sonho. Mesmo quando todos o encaravam com olhar de dúvida e menosprezo por conta de seus tiques e espasmos, ele provava que podia e era, como qualquer jogador, capaz de estar ocupando aquele espaço.


Na escola ficava inquieto e ansioso e até pedia para sair da sala mas no futebol era diferente. Como ele mesmo disse: “Nada disso importava desde que eu não deixasse a bola atravessar a linha e bater na rede. O campo era um lugar onde eu me sentia livre para ser eu mesmo. Era um porto seguro. E o melhor remédio que eu poderia ter tomado.” Tim chegou a relatar não fazer uso de medicamentos por medo dos reflexos e possivelmente problemas com o antidoping.

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